Tunga: Alquimia, Corpo e Mito na Arte Contemporânea Brasileira

Tunga

Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão) ocupa um lugar singular na arte brasileira. Entre os artistas brasileiros que transformaram radicalmente a ideia de escultura, Tunga ocupa um lugar singular.

Sua obra atravessa fronteiras entre linguagens, combinando escultura, instalação, performance, literatura e experimentação simbólica. Mais do que produzir objetos artísticos, ele construiu sistemas poéticos complexos onde matéria, corpo e imaginação operam como forças em transformação.

Tunga: Trajetória e Reconhecimento

Nascido em 1952 em Palmares (PE) e radicado no Rio de Janeiro, Tunga cresceu em um ambiente de efervescência intelectual — afinal, era filho do poeta Gerardo Mello Mourão. Além disso, formado em arquitetura, iniciou sua carreira nos anos 1970, focando, inicialmente, em desenhos e objetos que investigavam o corpo e a psique.

Desde o início da carreira, ainda nos anos 1970, Tunga, por sua vez, demonstrou interesse em ultrapassar os limites tradicionais da escultura. Em vez de trabalhar apenas com forma e volume, passou também a investigar relações entre materiais, forças invisíveis, narrativas simbólicas e experiências sensoriais. Nesse sentido, sua obra incorporava elementos como ferro, ímãs, vidro, líquidos, tecidos e até cabelos humanos, criando, assim, estruturas que pareciam existir entre o científico, o ritual e o poético.

Consequentemente, essa abordagem lhe rendeu reconhecimento internacional. De fato, sua relevância global foi consolidada em 2005, quando se tornou o primeiro artista contemporâneo do mundo a ter uma obra instalada sob a pirâmide do Museu do Louvre (À la Lumière des Deux Mondes). No Brasil, por outro lado, sua presença é monumental no Instituto Inhotim, que, inclusive, abriga duas galerias permanentes dedicadas

Obras Fundamentais

Abaixo, os marcos de sua produção que sintetizam sua investigação sobre magnetismo, biologia e rituais:

  1. Xifópagas Capilares entre Nós (1984): Uma performance e instalação onde duas gêmeas idênticas caminham unidas por uma longa cabeleira. A obra explora o mito, a dualidade e a interdependência dos corpos.
  2. True Rouge (1997): Localizada em um pavilhão icônico em Inhotim, esta instalação utiliza redes, recipientes de vidro, bolas de madeira e um líquido viscoso vermelho (simbolizando sangue ou vinho). É uma síntese da “alquimia” de Tunga.
  3. Ão (1981): Um loop cinematográfico em 16mm que percorre o túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, ao som de “Night and Day”. A obra cria uma sensação de infinito e circularidade, temas recorrentes em sua pesquisa.
  4. Cooking Crystals (1994-1995): Conjunto que utiliza ferro, imãs e cristais, evidenciando o interesse do artista pelas forças invisíveis da física e pela transformação dos materiais.

Tunga e a Profundidade de suas Obras

Entre as muitas obras criadas ao longo de sua carreira, algumas, de fato, se tornaram emblemáticas por sintetizar aspectos centrais de sua pesquisa.

Uma das mais conhecidas é Xifópagas Capilares Entre Nós, em que duas figuras femininas aparecem conectadas pelos cabelos, formando, assim, uma espécie de organismo compartilhado. Nessa perspectiva, a obra explora a ideia de duplicidade e interdependência entre corpos, sugerindo, portanto, que identidade e desejo são forças em constante circulação.

Xifópagas Capilares entre Nós (1984) [Reprodução: Tunga]

Outra peça igualmente importante é True Rouge, instalação-performance que, por sua vez, combina objetos metálicos, redes e líquidos vermelhos em um ambiente quase ritualístico. Nesse trabalho, Tunga cria uma atmosfera simbólica na qual elementos materiais parecem, ao mesmo tempo, ativar narrativas invisíveis.

True Rouge (1997)[Reprodução: Tunga]

Já a obra Ão, por outro lado, investiga a presença de forças magnéticas e tensões estruturais. Para isso, utilizando ímãs e estruturas metálicas, o artista torna perceptíveis fenômenos físicos que, em geral, permanecem invisíveis.

Em conjunto, essas obras revelam um aspecto recorrente de sua produção: a criação de universos narrativos próprios. Além disso, muitas vezes, textos escritos pelo próprio artista acompanhavam as instalações, ampliando, consequentemente, a experiência estética para um campo também literário e imaginativo.

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Inovação e linguagem artística

A inovação de Tunga reside principalmente em sua capacidade de transformar a escultura em um campo expandido de experiências. Em suas mãos, a obra deixa de ser apenas objeto para tornar-se ambiente, evento e narrativa.

Seu trabalho dialoga com artistas fundamentais da arte brasileira contemporânea, como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Cildo Meireles, que também questionaram os limites entre obra, espaço e participação do público. No entanto, Tunga desenvolveu uma linguagem muito particular, marcada por referências à alquimia, ao erotismo simbólico e a mitologias inventadas.

Se em muitos artistas contemporâneos a experimentação formal surge como crítica social ou política, em Tunga ela assume frequentemente uma dimensão quase cosmológica. Suas obras parecem sugerir que a matéria carrega memórias, energias e possibilidades de transformação que a arte pode revelar.

Tunga transformou a escultura em um “campo expandido”. Dialogando com o Neoconcretismo de Lygia Clark e Hélio Oiticica, ele avançou ao inserir elementos da psicanálise, da ciência e de mitologias inventadas. Para ele, a matéria não era inerte; ela carregava memória e energia.

Inspiração para Solano

A conexão entre Tunga e Solano reside na arte como gesto de iniciativa. Assim como Tunga criava seus próprios sistemas simbólicos sem esperar por validações externas, Solano compreende a obra como um processo vivo e ativo no mundo.

A influência de Tunga em Solano manifesta-se na postura: a arte não é apenas um objeto final, mas uma ferramenta radical para deslocar percepções e transformar a realidade através da experimentação entre pensamento e matéria.

A influência de Tunga aparece especialmente na forma como a arte pode ser entendida como processo vivo. Em ambos os casos, a obra não é apenas resultado final, mas parte de um movimento de investigação e construção de sentido.

Se Tunga propõe sistemas simbólicos complexos que conectam matéria, corpo e imaginação, Solano também parte de uma atitude ativa diante do espaço e da realidade. A arte surge como gesto que planta ideias, desloca percepções e cria novas possibilidades de experiência.