Artecologia e o Tempo Ecológico: A Obra como Processo

Artecologia

A Artecologia introduz uma inflexão decisiva na forma como o tempo é compreendido dentro da prática artística contemporânea. Se, durante séculos, a obra de arte foi concebida como um objeto estabilizado — uma forma fixada no espaço e preservada no tempo —, a Artecologia desloca essa lógica ao inscrever a obra em um regime temporal aberto, instável e processual. O tempo deixa de ser apenas o contexto da obra e passa a ser um de seus materiais constitutivos.

Essa mudança não acontece de forma isolada. Ela se enraíza profundamente nos princípios da restauração ecológica por nucleação, desenvolvida por Ademir Reis.

Nesse modelo, a regeneração ambiental deixa de representar um evento imediato e passa a se desenvolver como um processo gradual, que evolui ao longo do tempo por meio da interação entre diferentes agentes — plantas, animais, microrganismos, solo e clima. A intervenção inicial não define o resultado final; ela apenas inicia uma série de relações que se transformam continuamente.

Ao incorporar essa lógica, a Artecologia redefine o estatuto da obra. Ela deixa de ser um objeto finalizado e passa a ser um sistema em evolução. A obra não é algo que “é”, mas algo que “está sendo”. Sendo assim, cada momento de sua existência revela uma configuração distinta, resultado das interações que ocorrem em seu interior e com o ambiente ao redor.

Artecologia, Bruno Latour e a Transformação da Realidade

Essa perspectiva encontra ressonância no pensamento de Bruno Latour, especialmente em sua crítica à ideia de modernidade como separação entre natureza e sociedade. Para Latour, a realidade é composta por redes híbridas, em constante transformação. Não há estados fixos — apenas processos em curso. A obra artecológica, nesse sentido, não é um objeto isolado, mas um nó dentro de uma rede temporal dinâmica.

Bruno Latour (Reprodução: Bazar do Tempo)

Ao mesmo tempo, a dimensão temporal da Artecologia dialoga com as reflexões de Donna Haraway, particularmente em sua proposta de “permanecer com o problema”. Haraway nos convida a abandonar a busca por soluções rápidas e a nos engajar em processos complexos, que exigem tempo, cuidado e atenção. Dessa forma, a Artecologia incorpora essa ética ao valorizar a duração, a transformação e a continuidade.

Artecologia
Donna Haraway (Reprodução: Next Nature)

Nesse contexto, a obra cresce, se decompõe, recebe organismos e transforma suas propriedades ao longo do tempo. Em uma perspectiva tradicional, muitos interpretariam essas transformações como deterioração; aqui, elas integram o processo vital da obra.

Aliás, essa transformação também exige uma reconfiguração da experiência estética. O espectador deixa de contemplar uma forma estática e passa a acompanhar um processo em desenvolvimento. A fruição assume um caráter temporal e envolve repetição, retorno e observação contínua.

Além disso, o tempo introduz uma dimensão ética na prática artística. Ao criar uma obra que se desenvolve ao longo do tempo, o artista assume uma responsabilidade sobre seus efeitos futuros.

A Artecologia, então, ao incorporar o tempo como elemento central, propõe uma nova ontologia da arte. A obra não é mais um objeto no tempo — ela é tempo.

Baile Imperial, 2025
Série “Fragmentos Florestais”
12 árvores de tubetes e aparas
Dimensões variadas
Instalação realizada no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo (SP)
Obra de Solano