Solano inicia imersão no Acre para escrever O Menino da Seca, primeiro livro de uma saga sobre o sertão e a Amazônia

O romancista e artista visual Solano Aquino desembarcou em Rio Branco, no Acre, para iniciar uma imersão literária e cultural de fôlego. Recebido por Elenira Mendes, filha de Chico Mendes, o autor cumpre uma missão clara: uma pesquisa de campo intensiva para dar origem a uma saga literária planejada em cerca de 20 volumes.

Solano e Elenira Mendes, em uma visita na Casa Chico Mendes (Reprodução: Arquivo Solano)

A série cruzará a história do Brasil, interligando as grandes secas do Nordeste às lutas ambientais e históricas na Amazônia. Mais do que anfitriã do projeto, Elenira Mendes ajuda a aproximar o escritor da memória, dos valores e do legado de Chico Mendes, material que sustentará a dimensão histórica e afetiva da obra.

Raízes históricas: a Grande Seca de 1877 e o protagonista Alonso

O projeto mergulha fundo na história das migrações brasileiras. Em conversa com um guia local, Solano Aquino reconstituiu o marco de 1877, ano em que teve início a Grande Seca de 1877 a 1879. Considerada uma das maiores catástrofes climáticas da história do Brasil, vitimou cerca de 500 mil pessoas e empurrou multidões de retirantes nordestinos rumo à Amazônia, em busca de trabalho nos seringais. Foi esse fluxo que, nas décadas seguintes, ajudaria a ocupar o território acreano.

É nesse cenário que nasce o primeiro livro da série, O Menino da Seca. A obra apresenta Alonso, protagonista inspirado no bisavô do autor, de origem romani (cigana).

  • Alonso nasce em Garanhuns, Pernambuco, em 1877, o ano da seca, que por coincidência carrega a mesma dezena do ano de nascimento do próprio Solano (1977).
  • Aos 13 anos, migra para Olinda, onde trabalha para um senhor de engenho e conhece seu grande amor, Olindina, personagem baseada na bisavó do escritor.

Mesmo diante da tragédia da seca, a narrativa preserva uma identidade otimista. Solano Aquino aposta na resiliência, na música e na alegria da cultura romani como contraponto à dureza do sertão.

Homenagem a Chico Mendes e à defesa da Amazônia

O eixo central da saga é uma imersão respeitosa no território acreano e na defesa do meio ambiente. O propósito declarado de Solano Aquino é enaltecer o legado de Chico Mendes, prestando homenagem à sua luta pela floresta amazônica e destacando sua atualidade diante da urgência climática.

Mais do que um épico literário, o projeto nasce como tributo à força da natureza e à memória de quem dedicou a vida a defendê-la. A presença de Elenira Mendes, guardiã de parte importante da memória do pai, reforça o vínculo entre a obra e a preservação da história do líder seringueiro.

Solano e Elenira dialogam sobre o legado de Chico Mendes (Reprodução: Arquivo Solano)

Para ampliar a trama, os livros incorporarão a cosmogonia local e episódios históricos marcantes da região, entre eles:

  • A Revolução Acreana (1899 a 1903) e as disputas territoriais de quando o Acre ainda pertencia à Bolívia.
  • A Expedição dos Poetas (1900), expedição de intelectuais, médicos e boêmios que partiu de Manaus para retomar o território, e as revoltas sociais da época.
  • A força do “exército” de seringueiros que sustentou a luta pela anexação.

Todo esse material ficcional terá forte lastro afetivo, ancorado nas pesquisas, nas histórias e nos poemas reunidos por Higino Martins Aquino, pai do autor.

Diário de bordo: os próximos passos da imersão

Nos próximos 20 dias, Solano Aquino fará uma imersão concentrada na região, que ele compara a “um exército invadindo um território num ponto só”. O foco inicial é a tríade que estrutura o primeiro livro: o protagonista Alonso, a cidade de Xapuri e a cultura acreana.

O lançamento de O Menino da Seca está previsto para 15 de dezembro, data de nascimento de Chico Mendes, escolha de forte valor simbólico que reforça a homenagem ao líder ambientalista e à história do Acre.

Na mesma ocasião, Solano Aquino pretende doar uma obra de sua autoria à Casa de Chico Mendes, em Xapuri, a residência tombada onde o seringueiro viveu seus últimos anos e que hoje preserva sua memória. A obra, ainda em fase de definição, será criada especialmente para a homenagem e integrará as ações culturais do lançamento.

A experiência no Acre e o contato com o legado de Chico Mendes é um fator primordial para a história de O Menino da Seca (Reprodução: Arquivo Solano)

Assim, 15 de dezembro marcará não apenas o lançamento de O Menino da Seca, mas o início oficial da saga no Acre, unindo literatura, arte, memória histórica e preservação ambiental em uma celebração dedicada ao legado de Chico Mendes.