O que a Biologia não Explica Sozinha: Freud, Psicanálise, Arte e Artecologia

Quando observo a trajetória de Sigmund Freud, percebo algo que sempre me chamou atenção. Antes de desenvolver a psicanálise, ele era um homem profundamente ligado à ciência natural de seu tempo.

Formou-se médico, estudou anatomia, neurologia e fisiologia, acreditando, como muitos de seus contemporâneos, que os fenômenos humanos poderiam ser compreendidos a partir das estruturas biológicas e dos mecanismos do corpo. No entanto, ao longo de sua prática clínica, começou a perceber que havia uma dimensão da experiência humana que escapava aos instrumentos tradicionais da medicina.

Diante de seus pacientes, então, Freud encontrou sofrimentos que não podiam ser explicados apenas por lesões, nervos ou alterações orgânicas. Havia sintomas sem causa fisiológica evidente, dores sem feridas aparentes e angústias que se manifestavam no corpo, mas pareciam nascer também em outro campo: o da linguagem, da memória, do desejo e da história subjetiva.

Freud e o Nascimento de um Novo Método de Escuta

A proposta de Freud foi recebida com desconfiança e muitas vezes com ironia. Não porque o inconsciente fosse, por si só, uma ideia sem valor, mas porque Freud estava propondo um método diferente daquele das ciências naturais experimentais.

Sigmund Freud, o pai da Psicanálise (Reprodução: O Globo)

Consequentemente, a psicanálise não nasceu do mesmo modo que a física, a química ou a biologia experimental. Ela nasceu da clínica, da escuta, da interpretação e da relação entre analista e paciente. Isso não a torna menor.

Pelo contrário, torna-a diferente. Seu valor está justamente em ter construído um campo próprio para investigar a subjetividade humana, os sintomas, os sonhos, as repetições, os desejos e as narrativas que atravessam a vida psíquica.

Essa distinção é importante. As ciências naturais trabalham com métodos próprios, baseados em observação, formulação de hipóteses, experimentação, validação, repetição e falseamento. Elas são fundamentais para compreender os fenômenos do mundo físico e biológico.

A psicanálise, por sua vez, desenvolveu outro modo de investigação, voltado à escuta da subjetividade, à interpretação dos sintomas e à compreensão dos conflitos inconscientes. Portanto, não é necessário diminuir uma área para reconhecer a força da outra. Cada campo possui seu objeto, seu método, sua linguagem e sua contribuição.

A Biologia e as Relações da Vida

Ao longo da minha trajetória como biólogo, psicanalista, artista, restaurador florestal e educador, fui percebendo que a vida exige diferentes formas de conhecimento. Como biólogo, aprendi a observar a Natureza com atenção, método e respeito.

Solano na produção de mudas em ação do (Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) (Reprodução: Arquivo Solano)

Aprendi a olhar para uma semente e compreender que ali não existe apenas uma pequena estrutura vegetal, mas uma potência de vida. Além disso, aprendi que uma raiz não cresce por acaso, que um solo não é apenas terra, que uma floresta não é um conjunto de árvores isoladas e que nenhum organismo existe sozinho.

Afinal, a vida se organiza em relações. As Ciências Biológicas me ensinaram a observar padrões, identificar processos e compreender os mecanismos que sustentam os sistemas vivos. Foi por meio dessa formação que aprendi a enxergar a sucessão ecológica, a biodiversidade e a restauração ambiental como processos complexos, rigorosos e fundamentais para a manutenção da vida.

A Memória da Chácara La Paz

Antes mesmo de estudar Freud, biologia ou restauração ecológica de forma sistematizada, vi meu pai, Higino Aquino, tratar árvores como quem conversa com velhos amigos.

Higino Aquino em meados da década de 1970. (Reprodução Arquivo Solano)

Na Chácara La Paz, aprendi que uma floresta não é apenas um conjunto de espécies vegetais, mas um território de memória, cuidado e presença. Ali, antes do viveiro e antes do ateliê, nasceu meu primeiro laboratório vivo.

Foi naquele espaço, entre árvores, sombras, sementes e histórias, que comecei a compreender que a Natureza também fala, ainda que não fale com palavras humanas.

Meu pai tinha o hábito de dar nome às árvores. Para ele, elas nunca eram apenas espécies vegetais organizadas em uma paisagem. Cada árvore carregava uma história, uma memória, uma homenagem ou um afeto.

Algumas recebiam nomes de pessoas queridas. Outras representavam ideias, sentimentos ou momentos importantes da vida. Com o tempo, compreendi que ele não estava apenas plantando árvores; ele estava criando vínculos.

Havia também uma prática que me fascinava quando criança. Meu pai conduzia cuidadosamente o crescimento de algumas árvores jovens, entrelaçando seus troncos e galhos até formar aquilo que chamava de Ballet das Árvores.

Obra “Ballet das Árvores” de Solano, que reflete a influência de seu pai, exposta na parte externa da 36ª Bienal de São Paulo, em 2025. (Reprodução: Arquivo Solano)

Dessa forma, ao caminhar por aquele espaço, eu tinha a impressão de que as árvores dançavam silenciosamente umas com as outras. Isso não era apenas um gesto técnico. Era uma forma de imaginar a paisagem como linguagem, como arte viva e como relação.

Certa vez, durante uma visita escolar à Chácara La Paz, uma criança observou aquelas árvores trançadas com enorme curiosidade. Depois de algum tempo olhando atentamente para elas, encontrou uma semente de gurucaia caída no chão e a guardou com cuidado.

Quando perguntaram o motivo, respondeu que queria plantar a semente para fazer nascer uma árvore igual àquelas. Dessa forma, ela acreditava firmemente que a árvore já carregava dentro de si a possibilidade da dança.

As Possibilidades da Arte e da Natureza

Essa cena [da árvore] nunca saiu da minha memória. Anos depois, compreendi que aquela criança havia entendido algo que muitos adultos ainda têm dificuldade de perceber. Ela não estava olhando apenas para uma árvore. Ela estava olhando para uma possibilidade.

Talvez seja justamente isso que a arte faça. Ela nos ensina a enxergar possibilidades onde os outros enxergam apenas matéria. Além do mais, ela nos permite perceber relações onde os outros veem apenas objetos. Sendo assim, ela nos convida a imaginar futuros onde os outros enxergam apenas aquilo que já existe.

Hoje percebo que a Artecologia nasceu muito antes de receber esse nome. Ela começou ali, entre árvores, sementes, histórias e gestos aparentemente simples. Começou quando aprendi que a Natureza não é apenas algo que pode ser estudado, mas também algo que pode ser escutado, cuidado e vivido como experiência de transformação.

A Chácara La Paz não foi apenas um lugar da minha infância. Aliás, foi o primeiro território onde arte, Natureza, memória e educação passaram a coexistir como um único campo de aprendizagem.

Viveiro presente na Chácara La Paz (Reprodução: Arquivo Solano)

Contudo, à medida que aprofundava minha experiência profissional, percebia que muitas perguntas permaneciam abertas. Aliás, eu compreendia como uma floresta podia se regenerar, mas não entendia completamente por que o ser humano insistia em destruí-la.

Conhecia os processos ecológicos capazes de recuperar uma nascente, mas observava comunidades inteiras repetindo comportamentos que levavam novamente à degradação.

Foi nesse momento que comecei a perceber que a crise ambiental não era apenas ecológica. Ela também era humana, cultural, psíquica, filosófica e ética.

A Artecologia e os Sintomas da Cultura

Lembro-me de caminhar por áreas que antes eram apenas pastagens exauridas, terras compactadas, marcadas pelo sol, pelo pisoteio, pela erosão e por uma espécie de silêncio biológico. Em muitos desses lugares, a paisagem parecia ter perdido sua capacidade de responder.

Mas, depois do preparo do solo, da escolha das espécies, do plantio das mudas e do cuidado paciente, algo começava a mudar. Primeiro vinham as folhas novas, depois a sombra pequena, depois os insetos, os pássaros e a matéria orgânica se formando novamente no chão. Aquele espaço que parecia condenado começava a respirar.

Foi vendo uma área degradada se transformar lentamente em floresta jovem que compreendi que a restauração não é apenas um procedimento técnico; é também uma imagem poderosa de reconstrução do vínculo entre humanidade e Natureza.

Como psicanalista, encontrei outro território de investigação proposto por Freud. A psicanálise me ensinou que nem toda verdade aparece de forma objetiva diante dos olhos. Muitas vezes ela se manifesta através dos sintomas, das repetições, dos medos, dos desejos e das narrativas que construímos sobre nós mesmos.

De fato, Freud não diminuiu a ciência natural ao criar a psicanálise. Ele abriu outro campo de escuta. Ao propor que sonhos, lapsos de linguagem e sintomas poderiam revelar conteúdos importantes da experiência humana, ampliou a compreensão da subjetividade. Sua contribuição foi mostrar que a escuta também pode ser método, desde que respeite seu próprio campo de atuação.

Foi através da psicanálise de Freud que comecei a compreender que uma sociedade também produz sintomas. Assim como um indivíduo manifesta conflitos por meio de seu comportamento, uma cultura manifesta seus conflitos através das formas como se relaciona com o mundo.

A Escultura Socioambiental e o Laboratório Sensível

Uma sociedade que destrói suas florestas, polui seus rios, contamina seus solos e naturaliza a degradação ambiental talvez esteja revelando algo mais profundo sobre seus desejos, seus medos, suas formas de consumo e sua maneira de compreender a vida. Logo, a questão deixa de ser apenas ecológica e passa a envolver subjetividade, cultura, consciência e linguagem.

Como artista, encontrei um terceiro caminho. Assim, a arte me ensinou que existem conhecimentos que não cabem inteiramente em conceitos, gráficos ou teorias. Existem experiências que precisam ser vividas, sentidas e simbolizadas. Quando transformo resíduos em esculturas, quando organizo uma instalação, quando escrevo um livro ou quando proponho uma experiência estética e educativa, não estou apenas produzindo objetos.

Assim, estou investigando relações. Além disso, estou criando situações que permitam ao outro perceber aquilo que normalmente permanece invisível. Consequentemente, a arte possui a capacidade singular de transformar percepção em consciência e consciência em ação.

O ateliê, para mim, nunca foi apenas um lugar de produção artística. Por isso, ele se tornou também um laboratório sensível. E, em muitos momentos, percebi que o viveiro era uma espécie de ateliê ampliado.

No viveiro, subitamente, observo sementes, mudas, tubetes, raízes, substratos, água, luz, fungos, folhas e tempos diferentes de crescimento. Da mesma forma, no ateliê, observo plásticos, couros, tintas, resíduos, cortes, fusões, texturas, gestos e matérias que também estão em transformação.

Em ambos os espaços existe experimento, observação, erro, tentativa, cuidado e linguagem. A diferença é que, na Artecologia, o viveiro e o ateliê deixam de ser mundos separados e passam a formar um único campo de investigação poética, ecológica e simbólica da vida.

O Legado da Escultura Social

Mais tarde, ao encontrar o pensamento de Joseph Beuys, especialmente sua ideia de Escultura Social, percebi que a arte podia ir ainda mais longe. Beuys defendia que a sociedade inteira poderia ser moldada criativamente e que todo ser humano carrega uma potência artística capaz de transformar o mundo.

Dessa maneira, essa percepção dialogou profundamente com aquilo que eu já vinha buscando: uma arte que não se limita ao objeto, mas atua na educação, na Natureza, na cultura e na transformação da vida.

Na Artecologia, então, essa ideia se amplia como Escultura Socioambiental, porque a obra não se dirige apenas ao corpo social, mas também aos vínculos entre humanidade, território, floresta e futuro.

A Síntese dos Conhecimentos e a Restauração Planetária

Foi justamente no encontro entre esses percursos que começou a nascer a Artecologia. Da biologia herdei a observação dos sistemas vivos. Indo da psicanálise de Freud herdei a escuta da subjetividade. Da arte herdei a capacidade de transformar experiência em linguagem. Da filosofia herdei a pergunta pelo sentido.

Das ciências humanas herdei a compreensão de que todo ser humano vive dentro de uma cultura, de uma história e de uma rede de relações.

Dessa forma, aos poucos, compreendi que esses campos não eram concorrentes. Eles eram complementares. Todos procuravam responder, a partir de perspectivas diferentes, à mesma pergunta fundamental: o que é a vida e como podemos cuidar dela?

Para organizar esse pensamento, compreendo a Artecologia a partir de três campos complementares: o Campo Pulsional, ligado aos afetos, desejos e impulsos criadores; o Campo Nuclear, ligado aos vínculos, comunidades e relações; e o Campo de Luz, ligado ao conhecimento, à consciência, à filosofia e ao legado.

Inclusive, esses campos não são divisões rígidas, mas sim formas de compreender a complexidade da experiência humana e sua relação com os sistemas vivos.

Artecologia e Freud: Uma Ciência Sensível para a Vida

A Artecologia não pretende substituir a ciência natural, a psicanálise de Freud, a filosofia, as ciências humanas ou a arte. Seu propósito principal é criar uma ponte entre elas.

Sendo assim, uma ponte onde o organismo possa dialogar com o desejo, onde a ecologia possa dialogar com a subjetividade, onde a cultura possa dialogar com a Natureza e onde o conhecimento possa dialogar com a sensibilidade.

Portanto, quando utilizo a expressão “ciência sensível”, não reivindico para a Artecologia o mesmo estatuto metodológico das ciências naturais. Refiro-me a uma atitude investigativa que reconhece que a vida precisa ser observada, escutada, interpretada e vivida.

A ciência natural nos ensina como a vida funciona. A psicanálise nos ajuda a compreender como a subjetividade se organiza e sofre. A filosofia pergunta pelo sentido da existência. A arte transforma essas perguntas em experiência sensível. A Artecologia, em síntese, reúne esses caminhos não para confundi-los, mas para colocá-los em diálogo constante.

Por isso, quando falo em Artecologia, não estou falando apenas de arte ecológica. Estou falando de um método de escuta da vida. Sendo assim, escutar a floresta, o solo, a água, os resíduos, os animais, as crianças, os territórios, as memórias, os desejos, os medos e as formas de pensamento que organizam nossa relação com o mundo.

A crise ambiental não é apenas uma crise de recursos naturais. É, acima de tudo, uma crise de percepção, de vínculo e de sensibilidade.

O Caminho para a Cura Planetária

A grande tese da Artecologia é que não haverá restauração ambiental verdadeira sem restauração da sensibilidade humana. Podemos plantar milhões de árvores, desenvolver novas tecnologias, criar protocolos eficientes e produzir relatórios precisos, mas se não transformarmos o modo como pensamos, desejamos, consumimos e nos relacionamos com a vida, continuaremos produzindo as mesmas causas que geram destruição.

Talvez Freud tenha criado um método para escutar o inconsciente humano. A Artecologia, por sua vez, busca criar uma abordagem para escutar a vida em sua totalidade. Escutar o que fala dentro de nós e o que fala na Terra.

Escutar a dor dos corpos e a dor das paisagens. Por fim, escutar os sintomas da cultura e os sinais da Natureza. Porque talvez toda restauração comece quando deixamos de olhar para a vida como objeto e passamos a escutá-la como presença.

Talvez essa seja a contribuição mais profunda da Artecologia: mostrar que restaurar o mundo não é apenas devolver árvores à paisagem, mas devolver sensibilidade ao ser humano. A restauração do planeta começa quando compreendemos que toda floresta perdida também representa uma sensibilidade perdida. Portanto, restaurar a Terra talvez seja, no fundo, outra forma de restaurar a nós mesmos.