Na abertura da exposição Reverberações do Gesto, do artista zimbabuano Moffat Takadiwa, em São Paulo, aconteceu um encontro raro entre duas pesquisas artísticas profundamente conectadas pela matéria, pela ecologia e pela crítica política.
O diálogo entre Moffat e Solano Aquino revelou não apenas afinidades formais, mas sobretudo uma convergência ética. Ambos transformam resíduos em linguagem crítica e em possibilidade de regeneração simbólica.
Solano já acompanhava o trabalho de Moffat desde a sua participação na 36ª Bienal de São Paulo. Contudo, encontrar o artista pessoalmente e ouvir as suas reflexões sobre colonialismo, consumo e a grandiosa Natureza permitiu compreender a dimensão ainda mais profunda da sua obra. Moffat não trabalha apenas com materiais descartados, ele trabalha com sistemas de poder.
A Obra The Green Planet e a Crítica ao Consumo Global
Entre todas as peças da exposição, uma obra chamou particularmente a atenção de Solano: The Green Planet (2026). O artista construiu a peça a partir de escovas de dentes, teclas de computador, pentes e tampas plásticas.

Consequentemente, a obra apresenta uma superfície orgânica que remete simultaneamente a mapas biológicos, fungos, raízes, células vistas ao microscópio e paisagens vegetais em expansão. À distância, a composição parece um organismo vivo pulsando em crescimento.
De perto, porém, a estrutura revela-se composta por resíduos industriais oriundos do consumo global. Essa tensão entre a beleza e o colapso talvez seja uma das maiores forças do trabalho de Moffat. O artista explicou que muitos dos materiais utilizados nas suas obras vêm de objetos cotidianos descartados, especialmente resíduos associados aos sistemas contemporâneos de comunicação e consumo.
As teclas de computador, por exemplo, aparecem com frequência na sua produção por representarem a linguagem, a memória e o deslocamento cultural. Dessa forma, para Takadiwa, a linguagem torna-se uma das primeiras conexões possíveis entre as pessoas desenraizadas e as suas origens.
Moffat Takadiwa: Colonialismo, Memória e a Estética Ancestral
A pesquisa do artista nasce diretamente da realidade social do Zimbábue e das consequências contemporâneas do colonialismo. Moffat critica o modo como os países africanos continuam recebendo os impactos ambientais do consumo ocidental, principalmente através do descarte de lixo eletrônico e de resíduos industriais na grandiosa Natureza. O colonialismo, na sua visão, não terminou, apenas mudou de forma.
Em The Green Planet, essa crítica aparece de maneira silenciosa, porém contundente. O planeta verde apresentado pelo artista não é exatamente uma paisagem natural intocada, mas um ecossistema contaminado pela cultura do descarte.

Elementos não usuais tornam The Green Planet uma obra curiosa, moderna, quase inquietante. A obra sugere que já não existe separação clara entre a grandiosa Natureza e a tecnologia, entre a floresta e o plástico, entre o organismo vivo e a ruína industrial.
Ao mesmo tempo, existe algo profundamente ancestral na sua construção formal. Moffat inspira-se nas tradições de tecelagem e cestaria da cultura Korekore para organizar os materiais em estruturas semelhantes a tapeçarias orgânicas.
O gesto de costurar resíduos torna-se, portanto, um gesto de reconstrução histórica. Durante a sua fala, o artista destacou também a importância do Mbare Art Space, um espaço comunitário criado por ele em Harare.

Mais do que um ateliê, o local funciona como um ecossistema colaborativo de formação artística, coleta de materiais e fortalecimento comunitário. Para Moffat, o fazer artístico não pode separar-se das pessoas envolvidas na sua construção.
A Conexão com a Artecologia de Solano Aquino
É justamente nesse ponto que a sua pesquisa encontra profunda aproximação com a Artecologia desenvolvida por Solano Aquino.
Enquanto Moffat trabalha a partir dos resíduos urbanos e eletrônicos produzidos pela lógica colonial e capitalista global, Solano transforma materiais oriundos da restauração ambiental em estruturas escultóricas ligadas aos processos ecológicos de regeneração. O artista brasileiro utiliza tubetes, aparas plásticas, mangueiras de irrigação, couro e resíduos florestais.
Nos dois casos, o resíduo deixa de ser entendido como sobra. Ele transforma-se em memória e também em linguagem. Aliás, na obra de Moffat, os materiais denunciam os sistemas de exploração e de desigualdade ambiental.


Já na Artecologia, os resíduos tornam-se propágulos poéticos. Eles atuam como elementos capazes de iniciar novos sistemas vivos, inspirados na sucessão ecológica e na teoria das ilhas de nucleação desenvolvida pelo pesquisador Ademir Reis.
Ambos os artistas operam numa zona híbrida entre o orgânico e o industrial. As obras de Moffat parecem florestas contaminadas pela tecnologia, enquanto as criações de Solano lembram ecossistemas em recomposição. Em ambos os trabalhos, então, existe uma tentativa clara de devolver vitalidade à matéria rejeitada.
Moffat Takadiwa e a Obra de Arte Como Ecossistema Relacional
Essa aproximação aponta para uma transformação importante na arte contemporânea, evidenciando a passagem da obra como objeto isolado para a obra como ecossistema relacional. Mais do que produzir imagens, esses artistas produzem redes de pensamento, processos comunitários e experiências materiais que envolvem o território, a política, a grandiosa Natureza e a memória coletiva.



Há ainda uma dimensão filosófica comum entre os dois trabalhos, pois ambos estabelecem a compreensão de que os materiais carregam histórias. Nada está morto e nada é apenas matéria passiva. Cada fragmento plástico, cada tubo, cada tecla ou resíduo contém vestígios de trabalho, circulação, violência econômica e transformação ambiental.
Sendo assim, o encontro entre Moffat Takadiwa e Solano Aquino revela justamente isso, uma arte contemporânea que abandona a ideia de separação entre a estética e a realidade para atuar diretamente dentro das tensões do mundo. A obra já não representa a vida. Ela participa ativamente dela.